O homem, artista que seja, é sempre Ele e a sua Circunstância. E Pompeu não foge a esta regra. Na sua pintura de «figuração abstractizada», o Norte Português, multiplamente recriado, manifesta-se luminosamente, nos seus verdes, ocres e azuis, e, também, no vermelho, universal, do sangue, ou nos vermelhos inumeráveis de um sol poente, que se afunda no azul do oceano infinito.

Os temas da sua pintura actual expressam o sincretismo da vida, das emoções, o ecologismo, até, do estar complexo dos seres na natureza.

A sua pintura toma-nos a imaginação pela mão, e leva-nos, já meninos confiantes, a um mundo encantado, de fantasia, sonhos, surpresas e indagações! Assim, nela, um homem — deus e demónio — toca num piano a nossa música predilecta. E esta, num ápice, leva-nos a um baile ritual de aves, talvez em homenagem panteísta à deusa-flor que as alimenta. Do seu voo somos levados à menina, cujos sonhos esvoaçantes se ancoram, contudo, à generosa terra-mãe, expressa na fonte de vida, que uma multiplicidade de seios sugere. Neste percurso de suavidade e encantamento, de portas abertas à beleza, vamos projectando sonhos nossos, nas expressões pictóricas de Pompeu. E no fim deste percurso sem fim sentimos que, também a Pompeu, Deus deu a chave das «portas maravilhoso».                    

 

Fevereiro, 1994

 

 

 

Un homme, même artiste, est toujours Lui et sa Circonstance. Et Pompeu n'échappe pas à cette règle. Dans sa peinture de «figuration rendue abstraite», le Nord du Portugal, multiplement recréé, se manifeste lumineusement dans ses verts, ses ocres et ses bleus, mais aussi dans le rouge, universel, du sang, ou dans les innombrables rouges d'un soleil couchant qui s'abîme dans le bleu de l'océan infini.

Les thèmes de sa peinture actuelle expriment le syncrétisme de Ia vie, des émotions, même l'écologisme de l'être complexe des êtres dans Ia nature.

Sa peinture prend notre imagination par Ia main, et nous conduit, enfants déjà confiants, dans un monde enchanté de fantaisies, de rêves, surprises et questionnements. En elle, donc, l'homme — dieu et démon — joue sur un piano notre musique préférée. Et celle-ci, en un instant, nous transporte dans un bal rituel d'oiseaux, en hommage panthéiste — qui sait — à Ia déesse fleur qui les nourrit. Leur envol nous transporte vers Ia fillette dont les rêves flottants s'ancrent, malgré tout, dans Ia généreuse terre mère, figurée par Ia source de vie, qu'une multiplicité de seins suggère. En ce parcours doux et enchanteur, de portes ouvertes sur Ia beauté, nous projetons nos rêves a nous sur les expressions picturales de Pompeu. Et au bout de ce parcours sans fin, nous sentons bien qu'à Pompeu aussi, Dieu a remis Ia clé des «portes du merveilleux»

 

 février, 1994

 

 

In Catálogo da Exposição «Horizonte de Liberdade» de Orlando Pompeu, na Fundação Eng. António de Almeida. Janeiro / Fevereiro de 1997