O imaterial e o Testemunho

 

Pompeu, também Orlando, nascido no interior, curtido pelo Ocidente e pelo Oriente, hóspede das nuvens, onde habitualmente reside, não por simples encontro com o Impossível, mas por fatal encantamento dos acessos interditos. Ei-lo, pintor por diktat do instinto e cursado nas academias do convi(ver). Entre Fafe e Porto, Paris e Tóquio, Rio de Janeiro e Barcelona, São Francisco e Nova Iorque, foi-se firmando e reafirmando, foi-se sublimando sem abdicar de trono e do sonho originários. Soube levar e elevar Cepães, como metáfora de autenticidade, a poética consumível e traduzível pela sofreguidão das metrópoles.

Os seus documentos são códices de psicologia e de geografia. Não se aprimorou como funcionário de estampas. Conciliou e reconciliou impressões de localidade com simbologias do «des-formal» e da «des-convergência». Com suave pedagogia deslizou pelas babilónias da imagem os ícones do seu princípio de ser. E como se constata: compatibilizando testemunho e indefinido, reconhecível e intransmissível, típico e indagativo. Não teve de anular ou dissimular a sua galeria de paisagens e figuras. Somente as fez coabitar com as pulsões da urbanidade, da tecnologia, da especulação criativa. Pompeu sintetiza o emocional e o social, o conteúdo e o continente, deixando a pairar, na atmosfera pictórica, um limbo e um nimbo de imaterialidade, mesmo no rigor da geometria, mesmo no vigor da fisionomia.

Dá-se, pois, uma festiva trégua dos mitos da maternidade e da errância, da comunidade e da individualidade, da imaginação e da transgressão. Ele reinventa Mozart no rio Vizela e Verdi em St. Cloud, porque a infância e a liberdade marcam os seus gestos, protestos e afectos.

Pompeu, também Orlando, nómada do ilimitado, em passagem pelo Porto, onde os limites se envolvem em neblinas.

 

Fevereiro, 1994

 

 

 

 

De l´immatériel et du temoignage

 

Pompeu, mais Orlando aussi, est né en province, tanné par l'Occident, tanné par l'Orient, hôte des nuages, sa demeure habituelle, nullement parce qu'il aurait buté sur l'impossible, mais parce que les accès interdits l'ont fatalement envoûté. Le voilà peintre, par Diktat de l'instinct, formé dans les académies de Ia convivialité, du «convi-voir». Entre Fafe et Porto, Paris et Tokyo, Rio de Janeiro et Barcelone, San Francisco et New York, il s'est affirmé et réaffirmé, sublimé peu à peu sans abdiquer de son trône et de son rêve originels. II a su emporter et élever Cepães, métaphore de l'authenticité, poétique consommable et traduisible par Ia voracité des métropoles.

Ses documents sont des parchemins de psychologie et de géographie. II n'a pas fignolé comme préposé aux estampes. II a concilié et réconcilié des impressions de lieux avec des symbologies du «dé formel» et de Ia «dé convergence». Avec une suave pédagogie il a glissé sur les Babylones de l'image, les icônes de son principe d'être. Et il l'a fait comme on peut le voir: compatibilisant le témoignage et l'indéfini, le reconnaissable et l'intransmissible, le typique et le «questionnant». II n'a pas eu à         annuler sa galerie de paysages et de figures. II les a tout bonnement fait cohabiter avec les pulsions de l'urbanité, de Ia technologie, de Ia spéculation créative. Pompeu synthétise l'émotionnel et le social, le contenu et le contenant, laissant planer dans l'atmosphère picturale, des limbes et un nimbe d'immatérialité, jusque dans Ia rigueur géométrique, jusque dans Ia vigueur de Ia physionomie.

Une trêve festive s'instaure donc dans les mythes de Ia maternité et de l'errance, de Ia communauté et de l'individualité, de l'imagination et de Ia transgression. Sur Ia rivière Vizela il réinvente Mozart, et Verdi à St. Cloud, parce que l'enfance et Ia liberté marquent ses gestes, ses protestations et ses affections.

Pompeu, mais Orlando aussi, nomade de l'illimité, de passage à Porto où les limites s'enrobent de brumes.

 

 

 février, 1994

 

In Catálogo da Exposição «Horizonte de Liberdade» de Orlando Pompeu, na Fundação Eng. António de Almeida. Janeiro / Fevereiro de 1997