Sobre o que sabe do seu dia-a-dia, e das gentes que o preenchem e vivem, Orlando Pompeu faz uma pintura ingénua, ou «naïve», num grau «N» involuntário. Fosse ele americano e teria sido «hiper-realista»; mas a emigração de carne e osso ou de espírito não o tenta, e nos arredores de Fafe acha o nosso pintor suficiente salvação. Assim, entre os dois pólos duma função estética sofisticada, pêlo a pêlo, pele a pele, ruga a ruga, e do conhecimento directo desses pêlos, peles, rugas, meias feitas de lã e piolhos catados, ou pirilaus pendentes de crianças mal alimentadas — a arte de Pompeu tem a sua escolha necessária e suficiente. É insólita. Não sei bem se há ou houve em Portugal hiper-realistas de imitação entre outras modas assim ou assadas, com ano e meio de duração média possível; deles não me teria eu importado. De Pompeu, porém, sim, vendo-lhe a pintura e ouvindo-lhe as explicações aplicadas que vêm do fundo da sua aldeia, em pessoas e coisas. Por assim lembrar, ele olha a verdade como o velho morgado camiliano da sua terra já a sabia, em suas certezas que a cidade fictícia não podia abalar... As mãos engelhadas que Pompeu pinta, ou os cachaços tanados, as barbas por fazer, as filharadas rotas, têm e hão-de ter anos e anos de trabalhos — que de longe vêm e nunca assaz mudarão, nestes mundos de pobreza, fatalidade e resignação a que o pintor se habituou por dentro da sua experiência lá nascida... Pompeu pratica, com tranquila e amável convicção, uma arte que dá gosto e gozo ver. Como se reinventasse um mundo invisível na sua evidência quotidiana, modesta, teimosa, e só ao final impertinente, porque ninguém a esperava assim, de Fafe para baixo — e até mesmo Paris...

 

Paris, Julho 1987

 

 

Sur ce que l'on sait de son quotidien et des gens avec lesquelles il vit, Orlando

Pompeu fait involontairement une peinture ingénue ou «naïve».

S'il était américan, il serait «hyperréaliste» mais l'émigration physique ou spirituelle ne le séduit pas et c'est autour de Fafe que notre peintre trouve son monde.

Ainsi, entre les deux pôles, d'une fonction esthétique sophistiqués, poil à poil, peau

à peau, ride à ride, et Ia connaissance directe de ces poils, peux, rides, des bas faites avec Ia laine et pouillé ou des enfants mal nourris — l'art de Pompeu a son choix nécessaire et suffisant. Elle est insolite.

Je ne sais pas bien s'il y en a ou s'il y a eu au Portugal des hyperréalistes d'imitation ou d'autres modes avec un an et demi de durée possible. Je ne m'aurais pas inquiété avec eux. Mais si avec Pompeu, en regardant sa peinture et en lui écoutant ses explications appliquées qui viennent du fond de son village à travers les personnes et les objects.

II semble regarder Ia vérité comme le vieux fils aîné «Camilien» qui connaissait les certitudes de son village que Ia grande ville ne pouvait pás détruire...

Les mains ridées que Pompeu peint ou les cous noircis, les barbes sans raser, Ia potée d'Enfants rompus, ils ont et ils auront des années de travail qui ne changeront jamais dans le monde de misère, fatalité et résignation auquel le peintre s'est habitué avec son expérience qui est née là...

Pompeu pratique, avec une conviction aimable et tranquile, un art qui est agréable et qu'on aime regarder.

C'est comme s'il invintait de nouveau un monde invisible avec son évidence quoti-dienne, modeste, obstinée et seulement impertinente à Ia fin car personne ne l'atten dait comme ça a Fafe et même a Paris.

 

 Paris, juillet 1987

 

In Catálogo da Exposição «Horizonte de Liberdade» de Orlando Pompeu, na Fundação Eng. António de Almeida. Janeiro / Fevereiro de 1997