|
|
Nos
jardins de Pompeu
«(...)
o imo do coração, cujo funcionamento é um mistério para o próprio
indivíduo,
continuava inexpugnável»
— George Orwell, O Ano de 1984
Tendo
iniciado um percurso figurativo em 1978 com um sentido realista,
Orlando
Pompeu evolui para um paisagismo apoiado em valores lumínicos e já
em 1990, coincidindo com a sua viagem a Nova Iorque, para uma
figuração estilizada e decorativa, não
isenta de um humor por vezes melancólico que se desprende das mil
poses
repetidas do quotidiano. A partir de 1986 desenvolve uma abstracção
que se apoia em
ritmos lineares marcando o gesto, de fortes contrastes e intenso
cromatismo. A
linha, que se vai autonomizando à medida que a estilização da sua
pintura figurativa se acentua, merece, a meu, ver o protagonismo na
sua obra, sobretudo nos seus
desenhos.
A linha-cor
das figuras estilizadas da pintura é um arabesco que vai
desenrolando as
imagens do artista. Figuras por vezes bem-humoradas, por vezes
esfíngicas, pensativas ou com um certo pendor dramático. A sensação
de leveza que nos comunicam, é-lhes dada pela claridade dominante da
paleta, pelos contornos ressaltando
transparências e conotando uma ausência de peso e densidade, o todo
evocando um
universo de «guignol». Ligeireza que nos traz à lembrança «a
insustentável leveza do
ser», título do célebre romance de Kundera, e o seu contraponto de
drama em obras
como Em Resposta a Pompeu l e //, de 1992, onde a oblíqua do
sombrio eixo da
cruz se sobrepõe ao luminoso jogo das formas, ou No Universo dos
Homens, de
1993, onde os sinais da violência e da agressão atingem directamente
o homem
prisioneiro.
O que nos
parece dominante na representação mais emblemática do estilo de
Pompeu é justamente o apetite pela sensual reverberação das formas
tocadas pela luz, como as flores ou as borboletas, e conduzidas pelo
arabesco das linhas sinuosas
recortadas pela cor. A composição é igualmente sinuosa e
labiríntica, organizando-se por
vezes a partir de um centro definido pelo entrecruzar de figuras
geométricas.
Nos jardins
de Pompeu, aliás título de uma das suas composições, uma delicadeza
requintada lembra as estampas orientais (em sintonia com o interesse
do pintor pela arte
oriental e a sua visita ao Japão em 1994), mas a euforia das
mutações claras das suas
formas traduz uma futilidade bem ocidental, contrariada embora em
certas imagens pela reflexão, pela análise das «doenças do século»
(título de várias composições de 1995), ou das Metamorfoses do
Ser (uma obra de 1994), repercutindo a
angústia da fragmentação actual. Os temas sociais e a referência aos
símbolos da
sociedade de consumo, o futebol, a televisão, o automóvel, o
supermercado, são elementos para um diagnóstico dos hábitos
adquiridos e desprovidos de autêntico significado, conduzindo
irremediavelmente ao vazio, evocado em Repercussões do Nada de
1994.
Nas
personagens aparentemente tranquilas e vazias entrelaça-se o rodopio
de uma linha
dançarina que configura um modo possível do mundo do parecer. Tanto
quanto ele
se distingue do aparecer, de um outro processo, o das epifanias que
transportam os
segredos do invisível e do indizível, sugerido em Essência e
Fonte de Luz, de 1990, ou em
Causa Primeira, de 1991, onde o pássaro, inserido nos
círculos da harmonia,
simboliza a liberdade, a alma e também a capacidade de unir o céu e
a terra, a matéria e o
espírito. Os círculos, centro claramente definido da composição,
integram-se aí num
caleidoscópio de formas geométricas de que fazem parte o quadrado, o
rectângulo e a
vibração luminosa e contrastada da clara paleta do autor, realçada
pela profundidade dos
azuis e o calor solar dos amarelos, dos vermelhos e dos laranjas. Um
centro, configurando a pureza, a harmonia de um começo, capaz de
conferir um sentido ao mundo aqui representado.
O elogio
da linha
«(...)
nous avons Ia possibilité de pénétrer dans l'oeuvre, d'y devenir
actifs et de vivre sa pulsation
par tous nos sens» —
Kandinsky, Point Ligne Plan
«La
imagen dice Io indicible» — Octavio Paz, El Arco y Ia Lira
Este mundo é
o da visibilidade limitada pelas coordenadas de uma beleza
artificial e
efémera. Como parecem condenadas ao desaparecimento as linhas que o
vento
desenha na água, embora não desprovidas de encanto.
A
verdadeira realidade está «ailleurs», como na poesia de Rimbaud, ou
como escreve Emmanuel Lévinas, «La mise-en-question de soi est
précisément 1'accueil de l'absolument autre»(1).
Esta
realidade é a de uma sociedade do artifício, onde os valores do
humano se
revelam na suavidade da força de um lirismo que vai impondo as suas
leis (Beijo
Materno,
1991, Jovem Ternura ou Horizonte de Paixão, de 1992) e
desenhando as
Formas da Liberdade
(1992, 1993,
1995 e 1996), como nos universos premonitórios de
Orwell ou Huxley, onde todos são «felizes» e onde ninguém é feliz.
O artista
tem consciência dos seus sonhos, figurados em várias composições, onde
perfeitamente emerge a colorida e leve rêverie que o
alimenta, orientada assim mesmo
por um desejo de harmonia que o círculo plasticamente traduz,
rêverie bem
patente em obras como Formas de Criatividade ou Viagem ao
Templo da Fantasia, ambas
de 1996. Por outro lado, num processo de autoanálise, apela a uma
«exigência de
lucidez» (um título de 1996), a uma racionalidade que os minuciosos
insectos
representam e parece sobrepor-se às forças invasoras da sexualidade
e do instinto. Mas o
segredo do despertar de um grau superior de consciência poderá estar
antes num
«alerta ao subconsciente» (outro título de 1996), num grito
visceral, susceptível de
reconduzir o ser humano às origens de si mesmo, a uma «concepção
profunda», tema repetido da sua pintura e que passa pelo encontro
com o outro, talvez o outro mais
oculto de si-mesmo.
Um fio de
narratividade está presente no carácter compósito da imagem, na sua
expressividade que se completa apenas num todo sugerido na própria
fragmentação e
também na sequência e na recorrência dos vários temas, para os quais
procurámos uma
lógica possível repousando os seus alicerces na poesia, esse núcleo
inconfessável de sentido segundo Octavio Paz (2), que alimenta a
aventura da arte.
Na obra de
Pompeu, a linha parece afirmar os limites do absurdo, ela demarca
territórios e induz tanto na pintura como nos desenhos à certeza de
que alguma coisa permanece no final do baile de máscaras, talvez não
mais do que um «afecto solitário»,
título de um dos desenhos, o afecto da cor pela forma, ou do gesto
pelo seu suporte, um
princípio de caligrafia que poderá traduzir isso mesmo, um
princípio.
A linha, nos
desenhos, liberta-se da cor e o seu escuro traçado vai delineando,
balbuciando novos ícones, com um sentido de primitiva celebração de
vida. Aí sim,
poderá estar a vertente mais audaciosa da obra de Orlando Pompeu.
(1) Emmanucl Lévinas, Humanisme de l'Autre Homme, Éditions
Fata Morgana, Paris, 1972, p. 53.
(2) Octavio Paz, El Arco y Ia Lira. Col. Lengua y estudios
literarios, Fondo de Cultura Economica, México, 1981.
«La imagen», p. 106-111. |
|
| |
Dans les
jardins de Pompeu
«(...) Le tréfonds du coeur, dont le fonctionnement est un mystère
pour l'individu lui-même, restait inexpugnable»
- George Orwell, L'Année 1984
Ayant entrepris en 1978 un parcours figuratif imprégné d'un sens
réaliste, Orlando Pompeu évolue vers un paysagisme étayé sur des
valeurs luminiques, puis en 1990 déjà et coïncidant avec son voyage
à New York, vers une figuration stylisée et décorative, non exemptée
d'un humour parfois mélancolique qui se dégage des milles poses
répétées du quotidien. A partir de 1986, il développe une
abstraction appuyée sur des rythmes linéaires marquant le geste, aux
contrastes forts et d'un chromatisme intense. La ligne, qui
s'autonomise au fur et à mesure que s'accentue Ia stylisation de sa
peinture figurative, mérite me semble-t-il le protagonisme dans son
oeuvre, surtout dans ses dessins.
La
ligne-couleur des figures stylisées de Ia peinture est une arabesque
qui déroule les images de l'artiste, figures parfois plaisantes,
parfois impénétrables sphinx, pensives ou d'un penchant plutôt
dramatique. La sensation de légèreté qu'elles nous transmettent leur
est donnée par Ia clarté dominante de Ia palette, connotant une
absence de pesanteur et de densité, le tout évoquant un univers de
guignol. Légèreté qui nous met en mémoire «l'insoutenable légèreté
de l'être», titre du célèbre roman de Kundera, et son contrepoint du
drame dans des oeuvres telles que En réponse à
Pompeu l et //,
de 1992, où l'oblique de l'axe sombre de Ia croix se superpose au
jeu lumineux des formes, ou dans Dans l'univers des hommes,
de 1993, où les signaux de violence et d'agression atteignent
directement l'homme emprisonné.
Ce
qui nous semble dominer dans Ia représentation Ia plus emblématique
du style de Pompeu, c'est précisément son appétence pour Ia
sensuelle réverbération des formes effleurées par Ia lumière, comme
les fleurs ou les papillons, et conduites par l'arabesque des lignes
découpées par Ia couleur. La composition est, elle aussi, sinueuse
et labyrinthique, s'organisant parfois à partir d'un centre que
définit l'entrecroisement de figures géométriques.
Dans les jardins de Pompeu, titre d'ailleurs de l'une de ses
compositions, une délicatesse raffinée rappelle les estampes
orientales (en accord avec l'intérêt du peintre pour
l'art oriental et sa visite au Japon en 1994). Mais l'euphorie des
mutations claires de ses formes traduit une futilité toute
occidentale, contrariée pourtant, dans certaines images, par Ia
réflexion, par l'analyse des «maladies du siècle» (titre de
plusieurs compositions de 1995), ou des Métamorphoses de l'Etre
(une oeuvre de 1994), répercutant l'angoisse de Ia fragmentation
actuelle. Les thèmes sociaux et Ia référence aux symboles de Ia
société de consommation, le football, Ia télévision, le supermarché,
sont des éléments pour un diagnostic des habitudes acquises, dénuées
de vraie signification et menant immanquablement au vide, évoqué
dans Répercussions du Néant, de 1994.
Dans les personnages apparemment tranquilles et vides s'enchevêtre
le tourbillon d'une ligne ballerine qui configure un possible mode
du monde du paraître, pour autant qu'il se distingue de l'apparaître
d'un autre procédé, celui des épiphanies qui portent en elles les
secrets de l'invisible et de l'indicible, suggéré dans Essence et
source de lumière,
de 1990, ou dans Cause première, de 1991, où l'oiseau,
inscrit dans les cercles de l'harmonie, symbolise Ia liberté, l'âme,
et aussi Ia capacité à unir ciel et terre, matière et esprit. Les
cercles, centre clairement défini de Ia composition, s'y intègrent
dans un kaléidoscope de formes géométriques dont font partie le
carré, le rectangle et Ia vibration lumineuse et contrastée de Ia
claire palette de l'auteur renforcée par Ia profondeur des bleus et
Ia chaleur solaire des jaunes, des rouges et des oranges, un centre
qui configure Ia pureté, l'harmonie, d'un commencement, à même de
donner un sens au monde qui y est représenté.
L´EIoge
de Ia ligne
«(...)
nous avons Ia possibilité de pénétrer dans l'oeuvre, d'y devenir
actifs et de vivre sa pulsation par tous nos sens»
— Kandinsky, Point Ligne Plan
«La imagen dice Io indicible» — Octavio Paz, El Arco y Ia
Lira
Ce
monde est celui de Ia visibilité limitée par les coordonnées d'une
beauté arti-ficielle et éphémère, tout comme semblent condamnées à
disparaître les lignes que le vent dessine sur l'eau, même si elles
ne sont pas dénuées d'enchantement. La vraie réalité est ailleurs
comme dans Ia poésie de Rimbaud, ou «La mise-en-question de soi est
précisément l'accueil de l'absolument autre»*, comme l'écrit
Emmanuel Lévinas.
Cette réalité est celle d'une société de l'artifice, où les valeurs
de l'humain se révèlent dans Ia suavité de Ia force d'un lyrisme qui
finit par imposer ses lois (Baiser Maternel, 1991, Jeune
Tendresse ou Horizon de Passion, 1992) et par dessiner
les Formes de Ia Liberté (1992, 1993, 1995 et 1996), comme dans les
univers prémonitoires d'0rwell ou d'Huxley où tous sont «heureux»
sans que personne ne soit heureux.
L'artiste a conscience de ses rêves, figurés sur différentes
compositions et où émerge parfaitement Ia rêverie légère et colorée
qui l'alimente, orientée ainsi par un souhait d'harmonie que le
cercle traduit plastiquement, rêverie bien perceptible dans des
oeuvres comme Formes de Créativité ou Voyage au Temple de
Ia Fantaisie, toutes deux de 1996. Par ailleurs, dans un
processus d'autoanalyse, il appelle à une «exigence de lucidité»
(titre de 1996), à une rationalité que représentent les insectes
minutieux et semble se superposer aux forces envahissantes de Ia
sexualité et de l'instinct. Mais le secret du réveil d'un degré
supérieur de conscience semble résider plutôt dans une «alerte au
subconscient» (un autre titre de 1996), dans un cri viscéral,
susceptible de reconduire l'être humain à ses propres origines, à
une «conception profonde», thème réitéré de sa peinture et qui passe
par les retrouvailles avec l'autre, peut-être l'autre le plus
occulté de soi-même.
Une ligne de narrativité est présente dans le caractère composite de
l'image, dans son expressivité qui ne se complète que dans un tout
que Ia fragmentation elle-même suggère, mais aussi dans Ia séquence
et Ia récurrence des différents thèmes pour lesquels nous avons
cherché une possible logique plongeant ses racines dans Ia poésie,
ce noyau inconfessable du sens, selon Octavio Paz(2), et qui
alimente l'aventure de l'art.
Dans l'oeuvre de Pompeu, Ia ligne semble affirmer les limites de
l'absurde; elle délimite des territoires et conduit à Ia certitude,
aussi bien dans Ia peinture que dans les dessins, que quelque chose
subsiste à Ia fin du bal masqué, rien d'autre, peut-être, qu'une
«affection solitaire», titre de l'un de ses dessins, l'affection de
Ia couleur pour Ia forme, ou du geste pour son support, un
commencement de calligraphie qui pourrait précisément traduire cela,
un commencement.
Dans les dessins, Ia ligne s'affranchit de Ia couleur et son tracé
obscur délinée, balbutie de nouvelles icônes, avec le sens d'une
primitive célébration de vie. Là, vrai-ment, pourrait résider
l'aspect le plus audacieux de l'oeuvre de Pompeu.
(1) Emmanuel Lévinas, Humanisme de l'Autre Homme, Editions
Fata Morgana, Paris, 1972, p. 53.
(2) Octavio Paz, El Arco y Ia Lira, Col. Lengua y estudios
literarios, Fondo de Cultura Economica, México, 1981.
«La imagen», p. 106 à 111. |
|